Vida e Arte: quem imita quem?

Engraçado como às vezes a vida parece uma peça de teatro, e como há coisas em comum entre realidade e ficção.
Digo isso porque um fato curioso aconteceu certo dia, durante uma aula de TREPJ. Uma figura pitoresca adentrou nossa sala e muito me fez pensar em um grande drama do teatro brasileiro.
Enquanto narrava sua história, José Ferreira da Silva me lembrava um outro Zé. Refiro-me a Zé-do-Burro, personagem da peça “O Pagador de Promessas”, escrita em 1959 pelo dramaturgo Dias Gomes.
E o que os dois têm em comum? Bom! Pra começar, ambos se chamam José, são baianos, da roça e pagam uma promessa. Pediram curas, não para eles, e sim para quem lhes são caros. Zé-do-Burro, considerando que Iansã é Santa Bárbara, promete a ela que se esta curar seu burro, dividirá suas terras com os lavradores mais pobres que ele, carregará uma cruz tão pesada quanto a de Cristo até a Igreja de Santa Bárbara, e depositará a cruz no altar mor.
Já o nosso “Zé-da-Bike” (me permitirei assim chamá-lo), prometeu a Deus que daria a volta ao mundo de bicicleta, pregando a paz através de mensagens contra a violência, drogas, discriminação e preconceito racial, se seu pai voltasse a andar após ter ficado paralítico devido a um acidente. Pedidos atendidos, os pagadores seguem rumo ao cumprimento do prometido. O calvário de Zé-do-Burro durou mais ou menos uma semana. Zé-da-Bike está cumprindo sua promessa há 11 anos e prevê o término dela em 2011.
Claro que a vida de um pagador de promessas não é nada fácil. E ora vejam só! Um dos maiores obstáculos de nossos heróis é justamente a igreja! O primeiro Zé é impedido pelo padre de depositar a cruz no templo por não considerar a promessa válida, visto que foi feita em um terreiro de Iansã. O segundo é vítima de discriminação por parte de três padres de igrejas pessoenses e assim impedido de dar seu testemunho de vida nestes três templos visitados.
Algo que chama a atenção é a participação da mídia nas duas histórias. Zé-do-Burro é vítima da imprensa que tira proveito de sua desventura para vender jornal. Já Zé-da-Bike é mais esperto! Ele se aproveita da mídia para fazer “merchan” (como dizem os big brothers) e se sente uma celebridade.
Zé-do-Burro não tem o apoio de ninguém. Zé-da-Bike conta até com o governo federal. Aquele não carrega sua cruz até o altar, mas é carregado para dentro da igreja, morto sobre sua cruz. O fim de sua história é trágico enquanto que a história de Zé-da-Bike continua sobre duas rodas. Não sabemos como esta vai acabar, mas pelo visto caminha para uma epopéia.
Observando os pontos em comum desses dois “Josés”, me parece que histórias se repetem sim, mesmo que com pequenas modificações, mas cada um escreve seu final. Não importando se a arte imita a vida ou a vida imita a arte, afinal, isto é um círculo vicioso...

Obs: Texto escrito para atividade da disciplina "TREPJ - Técnicas de Reportagem, Entrevista e Pesquisa em Jornalismo".

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