Mimeticamente falando

Falta menos de um mês para produzir e entregar um artigo sobre mimese.

Passei quatro meses estudando isso e ainda tenho quase certeza de que não sei de nada sobre o tal assunto.

Para piorar, meu objeto de estudo é pura mimese! Minha orientadora é fera em mimese! E eu... Eu sou um zero à esquerda em mimese!!!

Procuro deixar as lamúrias de lado. “Mãos à obra! Vamos lá! É preciso continuar o que começou.” – penso.

Pego os textos estudados durante todo o período e os releio. Minha cabeça não assimila nada. Penso no que vou escolher como tema para aplicar o estudo da mimese e não sei o que pode ser. Um conto? Um filme? O meu objeto de estudo do mestrado? Este realmente seria o ideal! Mas não tenho idéia de como fazer! Sempre adormeço durante as leituras e aí começa o pesadelo.

Inicio a leitura dos textos e para minha surpresa, as letras começam a se misturar no papel. Saem do lugar como formigas em marcha. Ou melhor, EM FUGA! Fogem de mim e não as alcanço. Levam consigo as idéias que eu poderia usar em meu artigo.

Jogo o texto de lado. Deito-me e fecho os olhos. Procuro lembrar das falas do professor. Não vem nada.

De repente, uma idéia. Levanto-me em busca de lápis e papel. E assim que apanho o papel e empunho o lápis, a idéia já tem ido embora. Olho a folha em branco. É o reflexo de minha mente.

Sou teimosa. Tento rabiscar algo. O lápis parece escorregar de minha mão. Não posso sustentá-lo, pois não tenho nada para dizer através dele.

Impaciento-me. E lágrimas escorregam por minha face, para encher a folha em branco.

Fico a andar de um lado para o outro, reclamando da situação. Digo que vou jogar tudo para o alto e fugir. Porém, acorrentada, ouço vozes dizendo-me que não posso fazer isso, que devo ir até o fim.

Então, quando menos espero, surgem eles. Vários diabinhos gorduchos, de carinhas redondas e um chifre só. São quase idênticos. O que os diferencia é que uns tem apenas o chifre esquerdo e outros o direito. Mas todos me cercam, rodopiando numa dança frenética e rindo de mim.

_ Saíam daqui ou acabo com vocês! – berro quase rasgando os pulmões, tentando afugentá-los, mas é inútil. Fico tonta e deixo-me cair em um canto da parede.

Entre gargalhadas, iniciam um coro sinistramente harmônico.

_ Oriúde. Tô na mancha! Kkkkkkkkkkkkkkk Ai que meda! – caçoam de mim. Em seguida continuam:

_ Você não vai conseguir fazer esse trabalho. Você não é capaz!

_ Sim! Eu sou! – grito em desespero.

_ Não é não! Seu texto é paupérrimo! Você escreve cerca de nada! Kkkkkkkkkkkkkkkk – riem diabolicamente enquanto rodopiam e desfiguram-se.

A parede em que estou encostada parece se desmanchar. Levanto-me e tento correr. Mas não saio do lugar. Eles, porém, continuam me cercando. Rindo, fazendo caretas, jogando-me na cara, minha impotência.

“Por quê? Por quê?”

Fico me perguntando. Minha voz já não sai mais. Estou tonta! Tudo gira ao meu redor. Aqueles seres malignos se misturam. Ouço a palavra mimese ao longe como se fosse um mantra. Sinto meu sangue fervilhar e gelar ao mesmo tempo. Meu coração acelera. As gargalhadas diabólicas agora me ensurdecem. Não consigo gritar, embora sinta o grito pronto na garganta. Procuro papel e lápis para tentar dizer algo através da escrita, mas minhas mãos não sustentam nada.

_ ALGUÉM ME AJUDE! – berro em pensamento. Ninguém me ouve. _ PRECISO ME DESPERTAR DESSE PESADELO!!!

E meu Deus, que horror!

Descubro que ainda estou acordada.

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