Desespero
A meu ver, nada é pior que sentir-se impotente diante da possibilidade de perder alguém que amamos...
É como se você estivesse amarrado, embora seus braços estejam soltos. É como correr sem sair do lugar, ficar muda, ainda que consiga gritar! Enfim, é uma sensação completamente paradoxal...
E nesta noite, eu vivi todas estas contradições!
Tudo começou quando eu e minha mãe fomos às compras. Primeiro fomos ao supermercado e algo nos chamou atenção em um dos corredores do estabelecimento! Uma mulher havia montado um stand no qual ela vendia doces para festas. O engraçado é que até o que não parecia ser comestível, ERA COMESTÍVEL, como por exemplo, uma caixa que ela usava justamente para guardar outros doces e que por mais próximo que estivesse de nós, essa caixa parecia feita de isopor.
A mulher nos mostrava orgulhosa toda a sua arte – sim, porque seus doces eram verdadeiras obras de arte! – enquanto eu enchia a boca d’água, muito embora meu queixo estivesse no chão de tão admirada estava com a perfeição de seu trabalho. Já estávamos de saída quando perguntei:
_ Sim, mas... esses doces não são para os clientes experimentarem?
_ Ah, claro! São sim! Pode pegar o que você quiser.
E eu toda empolgada peguei um doce cuja forma pareceu-me inusitada. Era a cópia fiel de uma cebola!!! Até casca tinha! Incrível! Dei a primeira mordida e me deleitei... era deliciosamente perfeito, tanto na doçura quanto no aspecto! E assim, derretendo-me com tão maravilhosa iguaria, nem imaginava o amargor que experimentaria logo após...
Saímos do supermercado e entramos em algumas lojas da redondeza. Em seguida, entramos em um lugar muito feio, mas que minha mãe parecia conhecer bem. Tinha duas mulheres lá. Uma era nossa vizinha, a dona Zuleíde. A outra, mais jovem que a primeira, eu não conhecia, porém, ela demonstrou lembrar-se de minha mãe.
_ Oi! Vim aqui para você fazer o desenho da capa para mim! – disse mainha. A moça era uma espécie de estilista e a dona Zuleíde é costureira. Mainha ia viajar e participaria de uma festa. Queria estar bonita e desejava algo, que entendi ser uma espécie de enxarpe (ou echarpe, como preferirem ¬¬).
A moça sorriu e começou a rabiscar no papel, contudo, não terminou o seu desenho, pois em meio a conversa iniciada entre ela, mainha e dona Zuleíde, vi que as duas mulheres conduziram mainha até dentro de um guarda-roupa que dava acesso a outra parte da sala onde estávamos. Diziam que era para tirar as medidas, algo assim.
Fiquei sozinha no local que eu observava com certo receio. Era feio, escuro, meio deteriorado com paredes apenas no cimento grosso, sem nenhuma pintura, nada! E o que tinha dentro da tal sala, era apenas a mesa onde a moça desenhava e o tal guarda-roupa de portas azuis.
Voltei-me para o meu lado direito e vi uma janela de vidro que dava para um quintal. Repentinamente dona Zuleíde apareceu na janela, apontando para a porta que na verdade era a que dava acesso ao guarda-roupa. Aproximei-me da janela para tentar entender o que minha vizinha dizia, mas para meu desespero, vi uma mão suja de sangue tocar o vidro que me separava de dona Zuleíde. Gritei. Não identifiquei de quem era a mão, todavia, senti falta de minha mãe. Claro que não abri o vidro, não só por estar tomada de medo, mas principalmente porque não tinha como abri-lo. E com todas as limitações, aproximei-me mais da janela na tentativa de ver se minha mãe estava por ali ainda. Nada. “MÃE! MÃE!!!”, eu gritava desesperadamente, até que ouvi passos e ao voltar-me para a esquerda vi a moça com uma faca ensangüentada na mão, vindo ao meu encontro. Gritei mais uma vez, desta vez pelo horror de perceber que aquela mão que sujara de sangue o vidro da janela, era de minha mãe.
Não sei como, mas consegui sair de dentro da tal sala e chegar à rua. Vi um muro ao lado do local de onde eu tinha saído que me parecia dar acesso ao tal quintal. Mesmo tomada de medo, tentei subir no muro para ver se o corpo de mainha estava ali. Não vi nada e as mulheres agora corriam atrás de mim.
_ SOCORRO! SOCORRO! MINHA MÃE ESTÁ MORTA! ALGUÉM ME AJUDE! POLÍCIA!!! – mas ninguém me escutava. Pior! Não havia ninguém por perto! E quando surgia alguém, este parecia não perceber o movimento e nem ouvia sequer um único som saído de minha boca.
Eu corria muito, mas as mulheres sempre estavam a um passo apenas atrás de mim. Na verdade, parecia que eu não conseguia sair do lugar. Contudo, eu não desisti. Continuei lutando contra a força que me segurava as pernas e impedia-me sair do lugar.
Talvez pela agonia trazida junto com as lembranças desta noite, eu não consigo mais me recordar como consegui me livrar das assassinas. Só me lembro que depois de muito correr e perambular chorando, deparei-me com um cortejo. A princípio, eu não percebi que se tratava de um cortejo.
Apenas vi um grande número de pessoas se aproximando de mim sem que me vissem. Arrastaram-me, como se eu fosse um objeto que é facilmente levado pelas correntezas de um rio. Apesar de todo meu desespero naquele momento, não me deixei levar e comecei a caminhar em sentido contrário ao que caminhava a multidão. Entre cotoveladas, eu passava entre as pessoas tentando sair da multidão. Foi quando me deparei com o caixão. Parei em estado de choque. O que era aquilo? Quem morreu? De quem era aquele caixão??? Por que me deparar com uma cena dessas justamente agora em que acabo de ter minha mãe brutalmente assassinada? Espera um pouco! Cortejo? Caixão? Assassinato???
_MÃÃÃÃÃÃE!!! – gritei em meio a multidão. Não podia ser que aquele já fosse o enterro de minha mãe!!! Quase me afogando em lágrimas, consegui chegar a uma calçada e ver aquele show de horrores. Um caixão muito bonito, com a bandeira do Brasil e uma grande coroa de flores sobre ele, era carregado por uma multidão que seguia em frente sem choro, sem gemidos, como zumbis. – MÃE!!! – gritei mais uma vez. Olhei ao meu redor. Cadê meu pai? Meus irmãos? Os amigos de nossa família? Não havia ninguém. Eu estava completamente sozinha e cheia de dúvidas e medo.
O cortejo passou e quando eu ia segui-lo, vi um grupo de mulheres conversando ao pé de um portão. Foi quando notei uma senhora magra, de cabelos curtos presos com uma tiara, uma blusa verde e saia azul, com uma sacolinha embaixo do braço e um rosto sofrido, muito sofrido entre as outras que conversavam alegremente, como se não tivessem acabado de ver um espetáculo de dor passar de frente à elas.
Aproximei-me e reconheci nesta senhora triste, a figura de minha mãe. Chorei agora de alívio e alegria por vê-la ali, bem! E sem nenhum corte!
_ MÃE! – gritei e a abracei. Derretemos-nos em lágrimas, felizes por nos reencontrarmos, mas a dor e sofrimento não se apagavam de sua face. _ Mainha, pensei que... – não pude terminar de falar, porque fui interrompida pela fala de dona Zuleíde que dava uma ordem a minha mãe como se esta fosse sua escrava.
Não pensei duas vezes! Puxei minha mãe pela mão e nos colocamos a correr rua abaixo, agora sem nenhum vestígio do tal cortejo que já não me interessava de quem era. Dona Zuleíde mandava que outros nos pegassem. Eu gritava por socorro, no entanto, ninguém nos escutava. Um carro da polícia passou tão rapidamente, que logo a rua se fez deserta novamente. Estávamos sozinhas, eu e minha mãe. Nossa única companhia era apenas o desespero.
De repente, um rapaz em uma moto ouviu nossos gritos e deu meia-volta. “São elas!”, ele disse e quando se pôs a caminho de nós, entendi que ele era do grupo de dona Zuleíde. Entramos em um beco e, mais uma vez, não lembro como, nos livramos de nossos algozes.
Caminhamos por muito tempo até chegarmos às margens de uma BR. Vínhamos discutindo e nos perguntando o que era tudo aquilo que estava acontecendo. Como pode dona Zuleíde ser uma assassina? Sempre lhe fomos tão prestativas! Ela parecia ser tão gentil. Como nunca percebemos algo de errado nela? Então sentimos que alguém nos seguia. Olhamos para trás e vimos a tal vizinha homicida acompanhada de mais três pessoas. Uma moça de cabelos longos e negros; o rapaz da moto, loiro e de olhos verdes e logo mais atrás, um homem mais velho, calvo e de barba grisalha. O casal de jovens carregava, cada um, uma faca.
_ Dona Zuleide! O que é isso? Quem são essas pessoas? O que fizemos para a senhora? – eu gritava enquanto puxava minha mãe pela margem da BR deserta. Mais uma vez, estávamos sozinhas. Nenhum carro passava por ali. As quatro pessoas logo nos alcançaram.
Sinto-me sufocar só de recordar o medo vivido naquele momento. A lembrança me faz tanto mal, que apagou de minha memória como eu consegui uma faca também. Sim! Puxei minha mãe para o lado e mostrei a eles que eu também estava armada. Dona Zuleíde me disse que aqueles eram seus verdadeiros filhos e que aquele homem era seu esposo. Quer dizer, não era mais, pois para nos mostrar do que ela era capaz de fazer, mandou que seu filho degolasse o pai, ali mesmo em nossa frente. Os três riam enquanto o velho se esvaia em sangue...
Eu e minha mãe nos horrorizamos. A moça de cabelos negros avançou para cima de nós com sua faca empunhada. O medo que eu sentia de perder minha mãe ali era tão grande, que segurei a lâmina assassina que descia em nossa direção. Nem senti a dor do corte em minha mão, pois nada ali me interessava mais que proteger a vida de minha mãe.
Eu não tinha medo de morrer. Eu tinha medo de ver minha mãe morrer e eu não fazer nada para impedir. E por isso eu a colocava atrás de mim, protegendo-a com meu próprio corpo. Se por acaso acontecesse de conseguirem se aproximar de minha mãe, eu segurava seu pescoço cobrindo sua jugular com minha mão, como se assim conseguisse evitar que a degolassem.
Nos seguiram até em casa e visto que minha família não estava entendendo nada que acontecia, o grupo de assassinos tentava enganar meu pai e irmãos, fazendo-se de bonzinhos e desferir seus golpes mortais. Eu e mainha gritávamos para nossos amados entes que se afastassem daquelas pessoas, que não confiassem na vizinha, que tudo era mentira, que eram assassinos, porém, nossos gritos eram vãos!
Eu já estava perdendo as forças. Estava prestes a entregar os pontos e ver minha vida tornar-se um pesadelo quando finalmente consegui acordar de um sonho ruim...
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